Caipira? Não, não... Ela tem uns 700 anos!
- 17 de nov. de 2014
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O instrumento que eu uso é a viola, e deliberadamente eu não uso o termo viola caipira. Explico-me:
Este instrumento surgido por volta do séc. XIII, a partir de instrumentos árabes, em Portugal, Espanha e Itália, já possuía nos sécs. XIV e XV, a sua forma atual (de acordo com José Leite, no livro "Tocadores". Por sinal um belo livro sobre a cultura da viola no Brasil!). Isto quer dizer que o instrumento é muito anterior à cultura caipira no Brasil, ou melhor, ao próprio surgimento do Brasil. Dentro da história da música, a viola é anterior ao Renascimento (sécs. XV - XVII), na realidade surgida no período medieval!
Apesar do uso da viola nas manifestações culturais brasileiras ser antigo, o uso do termo música caipira, e consequentemente viola caipira, são bem recentes.
O que é mais caro para mim, é que a viola é um instrumento que foi criado dentro de um contexto de afinações justas medieval/renascentista, e que de alguma maneira, ainda hoje, se manifesta no modo como são distribuídas as cordas no instrumento presentes nas várias afinações usadas no Brasil (cinco pares de cordas, sendo que nos dois primeiros pares a relação entre as cordas do par é de uníssono e nos outros três pares a relação é de oitava. Eu uso a afinação Cebolão em Ré: Ré - Lá - Fá# - Ré - Lá), no modo de pontear a viola com grande ênfase ao uso de cordas soltas, principalmente como notas pedais. É um instrumento mais modal que tonal.
Neste sentido, a viola é um instrumento que conversa com a TEHP, mesmo no sentido simbólico. Mas os instrumentos atuais são todos construídos no sistema temperado, que não é um sistema de afinação justa, e que não se presta às relações possíveis desenvolvidas pela TEHP e a Música Contextual. (ver os posts: "A Mudança de Paradigma em Curso" e "Afinar no Tempo é Preciso...").
Isto significou que tive que recalcular todos os lugares onde os trastes são pregados no braço do instrumento, mas sempre de acordo com o contexto utilizado. É que na Música Contextual, primeiramente relevamos um contexto para depois as músicas poderem ser criadas, e entre dois contextos podem ter parciais harmônicos - no caso do instrumento musical, as notas - completamente diferentes no sentido das relações e, também, em absoluto.
Mas para chegar à solução atual, a minha viola passou por várias experiências. A pergunta que me colocava era como ter em um único instrumento a possibilidade de ter várias afinações possíveis criadas a partir dos vários contextos!
O primeiro modelo desenvolvido, juntamente com o Saraiva, grande luthier de violões de São Paulo, foi uma viola fretless (sem trastes), com o espelho do braço em aço inoxidável (inspirado no sarod, instrumento indiano) para que as notas pudessem ter um sustain a mais (para que a corda não parasse de vibrar rapidamente por conta do contato da corda com superfícies moles: a madeira do braço da viola e o meu dedo). Mas me deparei com dois problemas quando comecei a usar o instrumento: primeiramente de ordem técnica, na dificuldade de montar acordes em um instrumento sem trastes, que se sobrepõem ao problema da referência sonora, pois nossa referência cultural moderna é o sistema temperado (!).
Como segundo modelo, ainda com o Saraiva, resolvemos a questão da referência sonora usando uma referência física. O espelho em aço inoxidável foi substituído por um espelho móvel em acrílico, assim eu poderia pintar os trastes relativos às notas da afinação/contexto no verso do espelho. Mas ainda continuava a questão técnica da montagem de acordes, sabendo que se colocar o dedo 1 milímetro antes ou depois da marcação do traste, a nota estaria desafinada. Logo toda a percepção harmônica entre o tempo, as notas e as cores poderia se perder.
O terceiro modelo, que é o atual, agora junto com o luthier Marlon Chiquinato, indicado pelo Saraiva, foi o desenvolvimento de um espelho de madeira móvel com trastes pregados.
Retomando e como já dito no início, não uso o termo viola caipira, porque este termo dá uma conotação estética ao instrumento, como no termo guitarra flamenca, e o meu interesse está nas possibilidades do instrumento em si. Neste sentido, fiz algumas incursões técnicas por outras searas que não apenas a da viola brasileira. Quando comecei a estudar a viola, em 1998, me baseei em músicos como Roberto Corrêa, de Brasília; Braz da Viola, de São José dos Campos; além de Almir Sater, é claro. Depois, em algum momento, tive em minhas mãos o livro "My Music, My Life", uma autobiografia de Ravi Shankar. Neste livro, no último capítulo, há um manual para sitar, que surpreendentemente, deu para fazer uma adaptação muito interessante para a viola, dando um bom resultado quando da mistura entre ponteios, técnicas de sitar e rearranjos para viola de uma antiga banda de art-rock Anaconda.
Por conta de tudo, acredito que o melhor nome que eu possa usar seja viola justa, por todos os significados que a palavra justa possa acarretar. Ou simplesmente viola, para os íntimos... :-)

Viola justa com a régua para a afinação justa ptolomaica, usada no Contexto Manifesto Ptolomaico.






































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