A moça e a música
- 3 de nov. de 2014
- 3 min de leitura
Chamavam-na de Tep.
Seu nome, no entanto, era Euterpe.
Quem é filho de hippies ou quase-hippies carrega esta sina de que o nome não pode ser algo nele mesmo, deve carregar um significado amparado na natureza ou em algum símbolo qualquer. Seus pais, por uma razão que ela ainda não lembrara de perguntar, não lhe deram nome de algum elemento da natureza, do tipo Sol, Lua, River, Amora ou algum nome indígena como Cauã ou Cauê, (desculpe-me, caro leitor, mas não me lembro agora de nenhum nome feminino). Por alguma razão eles escolheram um nome grego, o da musa da música, Euterpe.
Talvez por conta de seu nome, Tep sempre se interessou por música. Como se diz por aí, arranhava um violão, martelava um piano e até cantava um pouco, sem se importar muito sobre o porquê e o como aquilo tudo chegou até ela ou até cada um no mundo.
Mas havia uma coisa que a intrigava. É que seu gosto por música, apesar de aparentemente ser da mesma maneira que aparentemente era o da maioria das pessoas, tinha um caráter de afago na alma, trazia uma espécie de agrado na intimidade que ela parecia não identificar na maneira como as pessoas se relacionavam com a arte de Euterpe, a musa.
Algo a incomodava de maneira especial: essa história da utilidade da música. Embora ela achasse claro que há músicas para dançar, para relaxar, para “viajar”, para transmitir mensagens sociais, para representar uma determinada comunidade etc., ela não entendia bem estas pesquisas que diziam que a música ajuda no desenvolvimento matemático; na interpretação de textos, no caso das canções e, especialmente, nos trabalhos ditos sociais que afirmavam que a música tira as crianças e adolescentes do crime, das drogas ou da ociosidade.
Pensando nisso, resolveu estudar música além daquilo que era já capaz de realizar. Resolveu estudar teoria, estética e história e começou a reparar que parecia haver uma certa inversão nestas coisas todas.
A música é algo que se deve estudar por si mesma, como se estuda matemática, português ou ciências (embora isto também possa ser discutido pois parece que só se estuda estas coisas todas para ter uma melhor inserção no mercado ou para melhorar as estatísticas do governo, mas isso seria assunto para outro post, paciência leitor!).
É preciso saber matemática para entender melhor a música, é preciso saber português, principalmente gramática para entender o que é uma metáfora, e entender a metáfora da notação musical, a música não pode ser responsável por livrar alguém do crime ou das drogas, mas pode dar a oportunidade de alguém entender que pode ser criativo e que essa criatividade, ou criação, proporciona um prazer em si mesmo, que exige para tanto um pouco de ociosidade para desabrochar.
Além disso, ela viu que a física, a psicofísica e ainda a matemática ajudam a entender afinações e temperamentos e seus efeitos na audição. Ajudam também a entender que estas coisas podem proporcionar diversas possibilidades de escutas diferenciadas com maiores ou menores graus de prazeres, sejam físicos, emocionais ou racionais. Sem contar que tudo isso, como ela notou durante seus estudos, ajuda a entender alguns tipos de música, mas que há muitos outros a serem explorados.
Pareceu a ela que as ideias no mundo estão um pouco fora do lugar, ou talvez de cabeça para baixo, ou com algum problema de lateralidade pois há até alguns que têm certeza de estar à esquerda quando estão completamente à direita.
Pensando nisso tudo, Tep decidiu estudar mais algum instrumento, mas dessa vez que não seja temperado.






































Comentários